Pati Rossi - Balance Seed Mentoria para Mulheres

Teve um dia que eu percebi uma coisa que me desmontou.

Eu estava na cozinha. Final de tarde. Casa funcionando. Tudo resolvido. Eu já tinha respondido às mensagens, organizado compromissos e adiantado o trabalho. Eu tinha feito o que precisava ser feito.

Eu estava dando conta.

Aí chegou uma mensagem no WhatsApp.

Nada grave. 
Nada urgente. 
Nada ofensivo.

Mas eu respondi seco.

E na mesma hora senti.

“Não precisava.”

E o pior não foi ter respondido daquele jeito. Foi perceber que aquilo não era novo. Eu já tinha feito aquilo antes. E antes. E antes.

Não era sobre a mensagem.

Era sobre o dia inteiro acumulado dentro de mim.

E foi ali que eu comecei a entender: talvez eu não estivesse cansada da vida. Talvez eu estivesse cansada de me sustentar sozinha.

Quando eu entendi que não era só cansaço

Durante muito tempo eu dizia que era cansaço.

Mas não era só isso.

Era oscilação.

Eu funcionava muito bem… até algo sair do controle.

E quando saía, eu mudava.

Ou falava mais alto do que queria. 
Ou me calava completamente. 
Ou ficava irritada por dentro e fingia que estava tudo bem.

No dia seguinte eu voltava ao normal. Organizada. Produtiva. Responsável.

Mas aquilo não era equilíbrio.

Era viver entre extremos.

E viver assim cansa de um jeito diferente. É um cansaço silencioso. Porque, por fora, tudo está funcionando.

Por dentro… você já não está tão presente.

Eu fiz quase dez anos de balé clássico.

Então quando assisti “Cisne Negro”, não foi só um filme. Foi quase um espelho.

Eu conhecia aquele universo. A disciplina. A cobrança. O perfeccionismo. O controle do corpo, do gesto, da postura.

A personagem parece impecável. Controlada. Forte. Focada.

Mas por dentro… ela está se desintegrando.

Ela não explode de uma vez.

Ela vai acumulando.

Vai apertando. 
Vai segurando. 
Vai tentando ser perfeita.

Até não caber mais dentro dela mesma.

E quando desmorona, parece exagero.

Mas não é exagero.

É acúmulo.

Eu percebi que, de um jeito muito mais silencioso, eu estava fazendo algo parecido. Controlando por fora e acumulando por dentro.

Foi numa fase de autoconhecimento mais profundo que uma música começou a me atravessar.

“Someone You Loved”, do Lewis Capaldi.

Eu escutava e parecia que aquilo dizia algo que eu ainda não tinha coragem de dizer.

“I’m going under, and this time I fear there’s no one to save me.”

Eu não estava “indo para o fundo” de forma dramática.

Eu estava me apagando aos poucos.

Funcionando. 
Entregando. 
Cuidando. 
Sendo forte.

Mas me desconectando.

E foi no meio do meu processo de autoconhecimento que eu percebi: eu não precisava ser salva de fora.

Eu precisava parar de me abandonar por dentro.

Não faz muito tempo.

Foram esses dias mesmo.

Minha fé estava mais fraca. Não desacreditada. Mas frágil. Cansada.

E eu peguei “A Imitação de Cristo” quase sem expectativa.

E uma frase ficou ecoando:

“Em Deus está a verdadeira paz.”

Eu sempre achei que paz era quando tudo estava resolvido.

Mas paz não é ausência de problema.

É ordem interna quando o problema aparece.

E eu não estava sem paz porque a vida era difícil.

Eu estava sem paz porque eu não sabia sustentar o que sentia diante das dificuldades.

Eu acumulava.

Engolia.

Aguentava.

E depois reagia.

Provérbios diz: 
“Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração.”

Eu achava que guardar era segurar.

Mas guardar é cuidar.

É organizar antes que vire peso.

Eu já sabia o que precisava mudar.

Já tinha consciência dos meus padrões.

Já tinha percebido minhas reações.

Mas continuava.

E essa é a parte mais difícil de confessar: às vezes a gente já sabe… mas ainda não sustenta.

Tiago escreve:

“Sejam praticantes da palavra, e não apenas ouvintes.”

Eu era ouvinte das minhas próprias reflexões.

Mas não estava praticando estrutura.

Eu tinha clareza.

Mas não tinha constância interna.

Eu não fiquei menos intensa.

Eu não virei alguém indiferente.

Eu não parei de sentir.

Eu comecei a organizar o que sentia antes de reagir.

Aprendi a perceber quando já estava no limite. 
Aprendi a falar antes de acumular. 
Aprendi a pausar antes de responder. 
Aprendi que sustentar é diferente de suportar.

Suportar é empurrar até explodir.

Sustentar é organizar antes de transbordar.

E isso mudou minha forma de viver.

Não porque a vida ficou mais fácil.

Mas porque eu deixei de viver no automático emocional.

Se você anda dando conta de tudo…

Mas não está leve.

Se você reage e depois se arrepende.

Se começa com tudo e não sustenta.

Se oscila entre controle e colapso.

Talvez não seja falta de força.

Talvez seja falta de organização interna.

Maturidade não é sentir menos.

É não se perder quando sente.

E isso não nasce pronto.

Se constrói.

E eu só comecei a construir quando parei de fingir que estava tudo bem… só porque eu estava dando conta.